segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Já somos um só povo

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Marcelo Camargo/Agência Brasil
“Vamos unir a todos, não haverá distinção entre nós, seremos um só povo, um só país, sobre uma só bandeira, um só hino.”

À primeira vista a frase de Boso parece inocente, positiva e reconfortante, no entanto, pode significar censura, perseguição e marginalização da oposição.

Talvez essa frase não seria nada demais se fosse proferida pela maioria dos candidatos que concorreram a presidência nessa eleição, mas, pelos antecedentes do agora eleito presidente ela pode ser interpretada de uma forma negativa.

Quando a ouvi a primeira indagação que tipo de “um só povo” ele está pregando. Não me entendam mal, não sou contra ser um só povo, mesmo porque já o somos. Um mesmo povo, com características distintas, pensamentos diferentes e regionalismos diversos. Cada canto desse país tem sua peculiaridade e sua maneira de enxergar a vida e ao meu ver é isso que faz o Brasil tão bonito.

A distinção entre o povo brasileiro, seja a forma que for, não diminui, ou melhor, em hipótese alguma pode ser motivo de régua moral para afirmar se alguém é menos ou mais brasileiro.

Discordância política/ideológica é salutar em uma democracia e para o crescimento de uma sociedade. Pensar que o “meu jeito e minhas ideias” são as melhores para o país e que todo o resto está errado e não serve para o Brasil é dividi-lo ainda mais.

Um povo unido não é um povo que pensa e age de uma mesma forma, mas que convive, debate e respeita o contraditório.

Outro problema dessa fala é pensar que como somos todos iguais logo não precisamos de políticas afirmativas, um engano, somos todos iguais sim perante a lei, entretanto, muitos de nós brasileiros não temos as mesmas oportunidades, infelizmente somos um país socialmente e economicamente desigual e que até equalizarmos essa situação políticas públicas voltadas para inclusão de determinados grupos da nossa sociedade é de extrema importância.

Ninguém se faz de coitado ou quer ser visto assim, não aquela pessoa que tem o mínimo de hombridade, a ideia é que esse tipo políticas afirmativas com o tempo desapareçam, mas para isso repito, precisamos enfrentar a desigualdade e não escondê-la ou fingir que não existe.

Digo tudo isso, pois Boso já fez declarações afirmando que iria acabar com a esquerda, prender e mandar para o exílio. Também disse ser contra diversas políticas afirmativas. Ele quer ser o presidente de todos e unir o Brasil, mas precisa entender e aceitar as diferenças e olhar com mais carinho para aqueles que precisam.

A continuar com esse discurso o presidente eleito só vai ser mais um projeto de ditador de uma nação dividida e pobre. Com respeito aos venezuelanos que sofrem, mas não queremos ser uma Venezuela chavista.
 

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