sábado, 10 de novembro de 2018

Bolsonaro vai censurar o Enem

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Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua, embora, a rigor, não fosse sempre a mesma guerra. Durante vários meses, durante sua meninice, houvera confusas lutas de rua na própria Londres, e de algumas ele se recordava vivamente. Mas seguir a história de todo o período, dizer quem lutava, contra quem, em determinado momento, seria absolutamente impossível, já que nenhum registro escrito, nem palavra oral, jamais faziam menção de outro alinhamento de forças, diferente do atual. Naquele momento, por exemplo, em 1984 (se é que era 1984), a Oceania estava em guerra com a Eurásia e era aliada da Lestásia. Em nenhuma manifestação pública ou particular se admitia jamais que as três potências se tivessem agrupado diferentemente.

Na verdade, como Winston se recordava muito bem, fazia apenas quatro anos a Oceania estivera em guerra com a Lestásia e em aliança com a Eurásia. Isso, porém, não passava de um naco de conhecimento furtivo, que ele possuía porque a sua memória não era satisfatoriamente controlada. Oficialmente, a mudança de aliados jamais tivera lugar. A Oceania estava em guerra com a Eurásia: portanto, a Oceania sempre estivera em guerra com a Eurásia. O inimigo do momento representava sempre o mal absoluto, daí decorrendo a impossibilidade de qualquer acordo passado ou futuro com ele.
Este é um trecho de “1984”, obra de George Orwell, onde mostra umas das manipulações do Estado sobre o ensino e educação dos seus cidadãos apagando o passado e reescrevendo a história sempre de acordo com seus interesses e desejos. Uma forma cruel e eficiente de contar a história de acordo com os interesses de um certo grupo é limar dos livros e por consequência do ensino o contraditório. 

Quando a educação passa por um filtro, seja ele qual for, o entendimento, o conhecimento e por consequência a noção básica do mundo está comprometida, pois informações foram omitidas e fatos escondidos. Por isso, vejo com preocupação o futuro presidente do Brasil dizer que vai avaliar as questões do Enem para retirar na opinião dele essas perguntas que transmitem doutrinação de qualquer forma que não a que acredita. 

As questões do Enem não são elaboradas sem critério ou supervisão, elas passam por vários filtros até serem impressas nas provas. A Superinteressante fez um artigo explicando esse processo. Então, depois desse trabalho todo, de vários professores, de várias instituições de ensino surge uma pessoa para classificar se aquilo é ou não é doutrinação de acordo tão e somente da sua opinião pessoal. 

Sabe o que é mais tenebroso é que o ex-excomungado capitão viu doutrinação nessa questão:
Onde sinceramente não existe nenhuma doutrinação, o enunciado não faz apologia a qualquer tipo de comportamento e a pergunta não é sobre o dialeto dos travestis. Ele entende que, veja bem, mencionar alguma minoria é doutrinação de esquerda(como se direitos das minorias não fosse uma questão humanitária) levantando a bandeira da "Escola Sem Partido" para manipular os incautos e poder o próprio doutrinar a sua maneira. Qual a intenção desse ato? Suprimir o debate dos direitos das minorias? Os marginalizar ainda mais?

“E as minorias descontentes, que se mudem! Vamos fazer o Brasil para as maiorias! As minorias tem que se curvar às maiorias! …As leis devem existir para defender as maiorias! As minorias que se adequam ou simplesmente desapareçam!”
Palavras de Bolsonaro
A pior censura, por assim dizer, é a prévia, pois ela impede que as pessoas nunca saberão o conteúdo do que foi censurado, impedindo-as de formar seu próprio julgamento e as deixando mais dependentes do Estado para que esse as guie até o matadouro como ovelhas obedientes que são. Um povo sem total informação é um povo que tende a obedecer mais fácil, pois não é levado ao contraditório. 

O presidente eleito nunca escondeu o seu amor pela Ditadura e tudo que ela representa. Tortura, perseguição, censura e morte são as engrenagens que regem qualquer tipo de ditadura, seja ela Esquerda ou da Direita e qualquer intenção de implementar essas engrenagens em nossa sociedade tem que ser combatida. Boso já disse que vai perseguir opositores e até mesmo sugeriu exílio para os mesmos, ameaçou a imprensa que não concorde com ele e agora quer censurar a seu critério provas do Enem. 

Talvez, com muita boa vontade, se esses acontecimentos fossem isolados não trariam uma preocupação, mas quando se tem uma forma autoritária de pensar, que não é segredo de ninguém, dito pelo mesmo várias e várias vezes e agora como presidente eleito age com censura, ameaças e perseguições, talvez seja a hora de acender “o sinal amarelo” pelo menos. 

O que o impede o Boso a seu critério manipular a história, já disse que não existiu Ditadura, que foi apenas um regime militar, se proibir questões que falam da Ditadura Militar no Enem e depois nas escolas será que nunca terá existido Ditadura Militar no Brasil? E a Oceania sempre estivera em guerra com a Eurásia?

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Já somos um só povo

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Marcelo Camargo/Agência Brasil
“Vamos unir a todos, não haverá distinção entre nós, seremos um só povo, um só país, sobre uma só bandeira, um só hino.”

À primeira vista a frase de Boso parece inocente, positiva e reconfortante, no entanto, pode significar censura, perseguição e marginalização da oposição.

Talvez essa frase não seria nada demais se fosse proferida pela maioria dos candidatos que concorreram a presidência nessa eleição, mas, pelos antecedentes do agora eleito presidente ela pode ser interpretada de uma forma negativa.

Quando a ouvi a primeira indagação que tipo de “um só povo” ele está pregando. Não me entendam mal, não sou contra ser um só povo, mesmo porque já o somos. Um mesmo povo, com características distintas, pensamentos diferentes e regionalismos diversos. Cada canto desse país tem sua peculiaridade e sua maneira de enxergar a vida e ao meu ver é isso que faz o Brasil tão bonito.

A distinção entre o povo brasileiro, seja a forma que for, não diminui, ou melhor, em hipótese alguma pode ser motivo de régua moral para afirmar se alguém é menos ou mais brasileiro.

Discordância política/ideológica é salutar em uma democracia e para o crescimento de uma sociedade. Pensar que o “meu jeito e minhas ideias” são as melhores para o país e que todo o resto está errado e não serve para o Brasil é dividi-lo ainda mais.

Um povo unido não é um povo que pensa e age de uma mesma forma, mas que convive, debate e respeita o contraditório.

Outro problema dessa fala é pensar que como somos todos iguais logo não precisamos de políticas afirmativas, um engano, somos todos iguais sim perante a lei, entretanto, muitos de nós brasileiros não temos as mesmas oportunidades, infelizmente somos um país socialmente e economicamente desigual e que até equalizarmos essa situação políticas públicas voltadas para inclusão de determinados grupos da nossa sociedade é de extrema importância.

Ninguém se faz de coitado ou quer ser visto assim, não aquela pessoa que tem o mínimo de hombridade, a ideia é que esse tipo políticas afirmativas com o tempo desapareçam, mas para isso repito, precisamos enfrentar a desigualdade e não escondê-la ou fingir que não existe.

Digo tudo isso, pois Boso já fez declarações afirmando que iria acabar com a esquerda, prender e mandar para o exílio. Também disse ser contra diversas políticas afirmativas. Ele quer ser o presidente de todos e unir o Brasil, mas precisa entender e aceitar as diferenças e olhar com mais carinho para aqueles que precisam.

A continuar com esse discurso o presidente eleito só vai ser mais um projeto de ditador de uma nação dividida e pobre. Com respeito aos venezuelanos que sofrem, mas não queremos ser uma Venezuela chavista.
 

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